Blog do projeto A trajetória da fumaça - O Eco/Becas Avina, onde notícias sobre fogo e fumaça na Amazônia brasileira são postadas, comentadas e complementadas por nossos leitores. Contribuam!
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Na última semana, o jornalista Valdemir Tedesco, da assessoria de imprensa do Ibama, acompanhou uma brigada de incêndio num combate em Rondônia. Sentiu na pele (literalmente) o impacto do fogo no trabalho destes homens. Seu relato, publicado hoje (10) no site do instituto, ilustra bem os sentimentos e sensações de quem se depara, pela primeira vez, com o poder das chamas. Confira.
A Nasa disponibilizou ontem (4) em seu site um mapa animado da trajetória da fumaça de incêndios florestais que afetam a região da Califórnia desde o dia 26 de agosto. Na animação, a agência americana mostra como a fumaça das queimadas é transportada para o leste do país nos dias subsequentes, cruzando Denver em 31 de agosto e o sudeste do Texas em 1º de setembro, até atingir a costa do golfo de Lousiana em 2 de setembro. Os levantamentos dos satélites indicam que, a medida que a pluma se move mais para leste, poluentes como monóxido e dióxido de carbono (CO e CO2) podem afetar negativamente a qualidade do ar em algumas cidades, como já ocorreu em Salt Lake City e Denver. No projeto A Trajetória da Fumaça mostramos como esse processo de disperção da fumaça ocorre quando as queimadas são na Amazônia.
No período crítico de estiagem, entre agosto e setembro, as queimadas são proibidas em vários pontos do país, como em alguns estados da Amazônia Legal e em São Paulo, durante certos períodos do dia. Mas isso não é garantia de que o fogo não vai ser ateado. Somente entre ontem e hoje (2 e 3), os satélites do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) contabilizaram nada menos que 2.420 focos de calor. Deste total, 256 ocorrem dentro de 59 unidades de conservação federais e estaduais, com destaque para os estados do Pará e Mato Grosso. Outros 94 focos foram registrados dentro de 29 terras indígenas.
Ari e Célia Picchi são um casal excepcional que eu e Cristiane encontramos nos arredores de Juína, no noroeste do Mato Grosso. Eles vivem no assentamento Iracema, a cerca de 90 quilômetros da zona urbana, ou a mais ou menos quatro horas de ônibus por estrada de terra. Em 1998, Ari abriu as primeiras picadas de uma fazenda desapropriada pelo Incra e, à época, completamente coberta por floresta. Em dez anos, não sobrou praticamente nada. Quem não vendeu seu lote para algum fazendeiro grande da região, tira renda do espaço à base de desmatamento e da criação de gado, comprado sem nota fiscal pelos frigoríficos das cercanias. Ari e Célia tentam fazer diferente. Cobram do poder público políticas menos danosas à floresta que eles lutam para manter de pé, apesar dos incêndios rotineiros que acometem sua pequena propriedade. Eles não estão sozinhos. Algumas dezenas de famílias são assistidas pela Associação Juinense Organizada de Ajuda Mútua (Ajopam) e tentam tirar sustento de culturas que não exigem corte raso da floresta, mas os incentivos do governo para que eles mesmos acreditem nesta alternativa mingam a cada ano. Diante desta situação, vejam o que dizem Ari e Célia sobre as condições reais de se abandonar o uso do fogo na Amazônia.